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Por Redação RPJNEWS
No último dia 18, um incidente de trânsito ocorrido na via expressa Shin-Meishin, na cidade de Kameyama (Mie), expôs, mais uma vez, o tratamento desigual que estrangeiros sofrem no Japão. Um veículo conduzido por John Elias Rossi Cruz, cidadão peruano de 34 anos, residente em Nagahama (Shiga), trafegou na contramão e colidiu com outros carros, provocando uma sequência de acidentes. Quatro pessoas tiveram ferimentos leves.
Rossi Cruz foi preso sob a acusação de ter fugido após causar danos a dois veículos — conduta reprovável, é evidente. Contudo, o que veio depois revela algo ainda mais grave: o tratamento discriminatório e espetacularizado que certos estrangeiros enfrentam diante das autoridades japonesas.
A seletividade do rigor
O episódio, que deveria ser tratado como mais um entre tantos outros casos de imprudência no trânsito — cometidos por japoneses e estrangeiros —, se transformou em uma campanha midiática sensacionalista. A polícia e a imprensa local apresentaram Rossi Cruz como um exemplo negativo do “comportamento estrangeiro”, com uma narrativa carregada de julgamento moral e etnocentrismo.
Enquanto cidadãos japoneses que cometem crimes semelhantes são geralmente tratados com mais cautela pela mídia, o estrangeiro, principalmente latino-americano, é frequentemente demonizado. A cobertura desse caso foi amplificada de forma desproporcional, com detalhes explorados à exaustão, como se se tratasse de um ato premeditado ou um reflexo de uma suposta "irresponsabilidade estrangeira".
Criminalização do estrangeiro e propostas absurdas
O caso ganhou dimensões políticas. Parlamentares conservadores já se manifestaram propondo mudanças nos critérios para a transferência de habilitação de estrangeiros. Uma reação desproporcional e preconceituosa, que escancara a xenofobia institucionalizada.
A lógica é simples (e perversa): um erro de um estrangeiro serve de argumento para justificar restrições coletivas, ao passo que erros de cidadãos japoneses são tratados como exceções ou falhas individuais. O sistema se sustenta em uma ideia ilusória de superioridade moral e cultural que não encontra respaldo na realidade.
Dependência e hipocrisia
É importante lembrar: o Japão depende, cada vez mais, da mão de obra estrangeira para manter sua economia e serviços essenciais em funcionamento. No entanto, o tratamento dado a esses trabalhadores é, muitas vezes, desumano, hipócrita e marcado pela exclusão social.
O estrangeiro é bem-vindo enquanto aceita calado, trabalha em silêncio e não comete erros. No momento em que falha — como qualquer ser humano pode falhar —, torna-se alvo de estigmatização pública. Essa postura não apenas revela a prepotência das autoridades, mas também o racismo estrutural enraizado no sistema.
Conclusão: marketing da tragédia
A forma como o caso foi tratado mostra mais do que uma preocupação com segurança no trânsito — mostra o marketing da tragédia sendo utilizado para reforçar estereótipos. E quem compactua com esse tipo de narrativa xenofóbica, alimentando o preconceito em nome da “segurança”, é no mínimo conivente com a exclusão social.
A crítica aqui não é contra a aplicação da lei — ela é necessária e deve valer para todos. Mas sim contra a forma desigual com que essa lei é interpretada, divulgada e imposta. O Japão precisa, urgentemente, rever a maneira como lida com os estrangeiros que ajudam a sustentar o país. Caso contrário, seguirá preso à sua própria arrogância.
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