O Japão estuda apertar ainda mais os critérios para estrangeiros que desejam obter a nacionalidade japonesa, podendo inclusive ampliar o período mínimo de residência atualmente fixado em cinco anos. A informação foi revelada nesta terça-feira por uma fonte ligada ao assunto, em meio à revisão ampla que o país vem conduzindo sobre suas políticas voltadas a residentes estrangeiros.
Nos últimos meses, para quem realmente acompanha o desenvolvimento das políticas voltadas a estrangeiros no Japão, ficou evidente que o país segue por um caminho que vai muito além do discurso inicial. Para aqueles que ainda tentam justificar cada nova decisão do governo — seja por ingenuidade, medo ou simples conformismo — é necessário rever a linha do tempo.
A narrativa começou com os “ilegais”.
Era assim que o governo vendia o problema. A ministra falava em “assuntos relacionados ao estrangeiro”, expressão que, à primeira vista, sugeria a possibilidade de debates sobre inclusão, melhorias nas condições de trabalho e ajustes migratórios condizentes com a realidade dos milhares de trabalhadores que sustentam setores inteiros da economia japonesa.
Sim: a maioria dos estrangeiros no Japão é formada por trabalhadores. Gente que produz, paga impostos e cumpre suas obrigações.
Mas a história tomou outro rumo, da promessa de inclusão à marginalização generalizada
A narrativa evoluiu rápido. Primeiro veio a marginalização silenciosa. Depois, as taxas — reajustes em vistos, renovações e até no processo de residência permanente, com aumentos que ultrapassam 100%. Tudo isso embalado em discursos de “segurança”, “ordem” e “proteção da sociedade”.
E o mais curioso — ou preocupante: alguns brasileiros aplaudiram.
Expressões como “permanente é só uma condição” ou “sobrenome não quer dizer nada” passaram a circular como se fossem verdades incontestáveis. Tentativas quase desesperadas de validar medidas governamentais que afetam diretamente a própria comunidade estrangeira.
Agora, chegamos ao capítulo mais explícito: restrições no processo de naturalização. A máscara caiu.
O que sempre esteve claro para nós
Na RPJ, acompanhamos essa trajetória desde o primeiro passo. E percebemos que a intenção real nunca foi apenas combater irregularidades. O governo japonês é especialista em suavizar discursos enquanto, nos bastidores, endurece medidas que impactam todos os estrangeiros — inclusive aqueles totalmente regulares.
E aqui reside um ponto essencial:
Brasileiros passam por um dos processos mais rígidos de documentação antes mesmo de embarcarem.
Mesmo descendentes com koseki, sejam Issei , nissei ou sanseis, enfrentam exigências que muitas outras nacionalidades sequer chegam perto de cumprir.
Portanto, é preciso deixar claro: não há nada de ilegal na estadia de brasileiros, exceto quando alguém deixa o visto vencer — como acontece em qualquer país do mundo.
Um momento inédito na trajetória dekassegui
Nunca, em décadas de movimento dekassegui, vimos decisões tão duras e tão escancaradamente discriminatórias partindo diretamente do governo. E isso levanta perguntas incômodas, mas necessárias:
Quem pediu mão de obra estrangeira?
Quem abriu as portas?
Quem depende até hoje dessa força de trabalho para manter fábricas, serviços e produção funcionando?
As respostas são óbvias. O reconhecimento, não.
Enquanto isso, tem brasileiro dizendo “apoiado!”
Em meio às restrições, há quem comemore fotos de políticos apertando mãos e exibindo sorrisos protocolares, como se isso significasse proteção diplomática. Confundem marketing com política real.
Nelson Rodrigues explicou esse comportamento com precisão ao cunhar o termo complexo de vira-lata: a sensação de inferioridade e de submissão cultural que faz o brasileiro aceitar migalhas como se fossem favores. Até veículos de comunicação chegaram a celebrar uma “amizade¨ entre os dois países — uma amizade desgastada e sem créditos há muito tempo.
Outros são mais diretos e se revoltam: “Brasileiros sendo tratados como lixo.” Para os apaziguadores, o destino é o mesmo saco de gomi. Sem distinção. Sem exceções.
As novas restrições à nacionalidade deixam claro: estamos no mesmo barco, mas não no mesmo convés — estrangeiros de um lado, japoneses de outro.
E é por isso que deixamos aqui um recado direto à comunidade:
Brasileiros no Japão, valorizem-se.
Tenham orgulho da própria história.
Sejam a continuidade da coragem dos seus pais e avós que deixaram o país para que suas famílias não passassem fome — consequência, muitas vezes, de decisões infelizes de governos e coronéis da época, como Tomoyuki Yamashita.
Em outras palavras: tenham respeito por si mesmos. Tenham vergonha na cara.
Porque, enquanto parte da comunidade aplaude, o governo aperta —
e o aperto agora é para todos.