Uma mulher nipo-filipina de 95 anos teve seu pedido de reconhecimento da nacionalidade japonesa negado pela Justiça do Japão, apesar de apresentar teste de DNA e participar de um programa oficial do governo destinado justamente a localizar descendentes de japoneses deixados nas Filipinas após a Segunda Guerra Mundial.
Rosalina Kamba Fernandez protocolou o pedido na Vara de Família de Yonago, na província de Tottori, em março deste ano. A decisão foi publicada na quarta-feira (25), sob a justificativa de que não havia provas documentais suficientes para comprovar sua filiação, entre elas a certidão de casamento de seus pais.
Segundo o Centro de Apoio Jurídico Nikkei-jin das Filipinas, entidade japonesa que acompanha o caso, a defesa recorrerá imediatamente ao Tribunal Superior de Hiroshima.
Os advogados sustentam que Rosalina é filha de Rita Kamba, japonês nascido na província de Tottori e falecido em 1983. Além do exame de DNA, a defesa apresentou o relato da própria idosa, que afirma ter conhecido o pai quando tinha cerca de dez anos de idade.
Os documentos exigidos pela Justiça, porém, teriam sido destruídos durante a Segunda Guerra Mundial, circunstância que dificulta a comprovação da origem de centenas de descendentes de japoneses que permaneceram nas Filipinas após o conflito.
Esta não é a primeira tentativa de Rosalina. Em 2024, o Tribunal da Família de Tóquio também rejeitou seu pedido pelos mesmos motivos.
Em janeiro deste ano, a idosa participou de um programa promovido pelo governo japonês que levou descendentes às cidades de origem de seus familiares. Durante a visita à cidade de Hoki, em Tottori, Rosalina encontrou moradores que conheceram seu pai, reforçando seu vínculo histórico com o Japão.
Opinião RPJNEWS
O caso de Rosalina evidencia um problema histórico que ainda permanece sem solução. Passados mais de 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão continua exigindo documentos que, em muitos casos, foram destruídos justamente pelo conflito que obrigou milhares de japoneses a abandonar suas famílias ou permanecer em outros países.
Na avaliação da RPJNEWS, situações como essa demonstram, na prática, a dificuldade do Estado japonês em reconhecer parte de sua própria história e das consequências humanas da guerra. Muitos descendentes nas Filipinas continuam enfrentando barreiras burocráticas para comprovar uma origem cuja documentação desapareceu durante o conflito.
Essa realidade não é exclusiva do Japão. Casos semelhantes de reconhecimento tardio ou incompleto de vítimas de processos históricos também são observados em outros países, como as Filipinas e o Brasil, onde grupos afetados por conflitos, migrações forçadas ou políticas estatais ainda enfrentam obstáculos para obter reconhecimento e reparação.
Enquanto a burocracia exige documentos que muitas vezes deixaram de existir por causa da própria guerra, sobreviventes envelhecem aguardando o reconhecimento de uma identidade que afirmam possuir desde o nascimento.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se