Espaço para comunicar erros nesta postagem
Durante o trabalho da imprensa, é comum ouvir comentários como “parem com o mimimi” — termo usado para desqualificar denúncias e críticas, associando-as a vitimismo ou reclamação excessiva. Outra acusação recorrente é a de “sensacionalismo”. Na maioria das vezes, essas reações partem dos setores mais fortes e protegidos da sociedade: empresários, grandes produtores, pessoas com estabilidade financeira e oportunistas de plantão, que não vivenciam a realidade do estrangeiro na base da pirâmide social.
A realidade, porém, é objetiva: o noticiário voltado aos estrangeiros no Japão é quase exclusivamente negativo. Isso não apenas informa, mas desgasta, desmotiva e reduz a autoestima coletiva. Assim como no Brasil a tragédia rende audiência — e a política também —, no Japão, quando o assunto é estrangeiro, o foco quase sempre recai sobre problemas, punições, endurecimento de regras e conflitos.
A pergunta que precisa ser feita é direta e incômoda: qual foi a boa notícia que os estrangeiros receberam nos últimos dias?
A resposta, para muitos, é simples: nenhuma.
Se existisse uma narrativa minimamente equilibrada, talvez víssemos manchetes como a criação de ONGs estruturadas e financiadas pelo governo para assistência real aos estrangeiros; prefeituras investindo de forma sólida na educação de filhos de imigrantes, com escolas brasileiras e japonesas gratuitas e de qualidade; ou cursos contínuos e acessíveis de língua japonesa, capazes de promover integração efetiva.
Em vez disso, o que muitos recebem são visitas domiciliares para medir pressão arterial e responder questionários genéricos de saúde. Se a intenção fosse integração, por que não enviar professores às casas para ensinar o idioma japonêsにほんご (nihongo)Essa, sim, seria uma boa notícia — mas que nunca veio.
Outra notícia positiva que nunca se concretizou seria o equilíbrio entre exigência e contrapartida: regras mais rígidas para vistos acompanhadas de políticas claras de inclusão, como balcões públicos de oferta de emprego, inclusive para pessoas acima dos 50 anos, ou programas reais de incentivo ao empreendedorismo estrangeiro, com acesso a crédito, orientação e proteção institucional.
Nada disso ocorre de forma consistente. O que chega, quase sempre, é o que o ditado popular resume bem: “só vem chicotada”. O estrangeiro trabalha, paga impostos, é cobrado, fiscalizado, pressionado e, ao final, ainda ouve a frase que se tornou quase um mantra social: “se não está contente, volte para o seu país”.
Diante de um fluxo contínuo de notícias ruins e da ausência total de benefícios sólidos e duradouros voltados aos imigrantes, o discurso irônico ganha força: “voltem para o seu país”. Não como desejo, mas como constatação amarga. Porque de “mimimi” do Japão, o estrangeiro já está farto.
Não se trata de vitimismo. Trata-se de reconhecer que, no Japão, o estrangeiro raramente vira notícia quando algo dá certo — porque, para ele, quase nunca dá. O problema não é apenas o tom da cobertura, mas a inexistência de políticas públicas capazes de gerar, de fato, boas notícias a serem publicadas.
Nossas notícias
no celular
Comentários