A recente reação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da decisão dos Estados Unidos de restringir acessos de um delegado da Polícia Federal escancarou uma velha prática: a reciprocidade diplomática parece funcionar com rigor quando envolve interesses institucionais — mas perde força quando o assunto são cidadãos brasileiros comuns no exterior.
O episódio começou após autoridades norte-americanas retirarem privilégios de acesso do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação em Miami. A medida foi baseada em suspeitas de irregularidades envolvendo procedimentos ligados ao ex-deputado Alexandre Ramagem. Em resposta, o Brasil adotou a chamada “reciprocidade”, restringindo acessos de um funcionário americano em território nacional.
Na teoria, a reciprocidade é um princípio clássico das relações internacionais: um país responde a uma ação estrangeira com medidas equivalentes, buscando equilíbrio diplomático. Na prática, no entanto, o episódio levanta questionamentos sobre a seletividade dessa postura.
Isso porque, enquanto o governo demonstra agilidade e firmeza ao reagir a decisões que afetam estruturas estatais, brasileiros que vivem no exterior relatam situações recorrentes de discriminação, dificuldades burocráticas e até violações de direitos — sem que haja respostas proporcionais ou visíveis por parte das autoridades brasileiras.
Casos envolvendo comunidades brasileiras em países como Japão e Portugal, frequentemente citados por denúncias de tratamento desigual, não recebem o mesmo peso político ou diplomático. Não há medidas de “reciprocidade” nesses contextos, nem endurecimento de regras migratórias ou revisão de acordos bilaterais.
A crítica que emerge é direta: a proteção institucional parece ter prioridade sobre a proteção do cidadão. Quando o problema envolve um delegado ou uma decisão entre governos, a resposta é rápida. Quando envolve brasileiros comuns enfrentando dificuldades fora do país, o silêncio predomina.
A situação expõe uma contradição incômoda. Se a reciprocidade é um instrumento legítimo de defesa nacional, por que não aplicá-la também em defesa dos cidadãos? Ou será que, na prática, ela só vale quando há interesses políticos mais amplos em jogo?
No fim, fica a sensação de que existem dois pesos e duas medidas na diplomacia brasileira — uma para crises que atingem o Estado, outra para problemas que atingem diretamente o povo.
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