TÓQUIO – Parece que as lições de 1945 estão sendo esquecidas nos corredores do poder em Tóquio. Em uma declaração que ecoa como um tapa na face dos sobreviventes da bomba atômica (os Hibakusha), uma fonte do gabinete da primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou, nesta quinta-feira, que o Japão "precisa de armas nucleares". O comentário expõe uma contradição assustadora: a única nação do planeta que sentiu na pele o horror da destruição nuclear agora quer se tornar parte do clube dos que detêm o poder de destruir o mundo.

"Acho que deveríamos possuir armas nucleares", disse a fonte ligada à formulação da política de segurança de Takaichi. Embora tenha admitido que a medida é "irrealista" no momento, comparando a aquisição de uma ogiva a algo que não se compra "simplesmente em uma loja de conveniência", a intenção por trás da fala revela um Japão que parece estar perdendo sua identidade pacifista.

O Abandono do "Credo Nacional" e a Sombra da Guerra

A primeira-ministra Sanae Takaichi, conhecida por sua postura linha-dura e nacionalista, está considerando revisar os Três Princípios Não Nucleares (não produzir, não possuir e não permitir a introdução de armas nucleares no país). Esses princípios, estabelecidos em 1967 pelo então premiê Eisaku Sato, renderam a ele o Prêmio Nobel da Paz em 1974 e se tornaram o alicerce moral do Japão moderno.

Leia Também:

Para os críticos, essa movimentação sugere que o Japão não aprendeu com os erros de seu passado imperialista. Ao afirmar que "no fim, só podemos contar conosco mesmos", o atual governo ignora décadas de diplomacia pacifista e flerta com uma corrida armamentista que pode incendiar a já instável região da Ásia.

Um Futuro Nuclear Sob a Proteção dos EUA?

A ironia se aprofunda quando observamos que o Japão já vive sob a "dissuasão nuclear" dos Estados Unidos. Para alguns analistas, o país já vivia uma hipocrisia ao se dizer antinuclear enquanto era protegido pelo arsenal americano. No entanto, o desejo de possuir suas próprias bombas marca uma mudança drástica de mentalidade: a transição de uma nação que prega a paz para uma nação que se prepara para a guerra.

Apesar da negação oficial de que houve conversas diretas entre a fonte e a primeira-ministra sobre o tema, o balão de ensaio foi lançado. Em 1999, um vice-ministro foi demitido apenas por sugerir essa possibilidade. Hoje, o clima parece diferente. Enquanto o governo Takaichi move as peças no tabuleiro da segurança, a população, que ainda preza a Constituição Pacifista, assiste com temor.

Resta a pergunta: o Japão quer garantir sua segurança ou está apenas permitindo que o instinto de guerra, que outrora destruiu o país, retorne para assombrar as gerações futuras?

FONTE/CRÉDITOS: Da redação