Na cidade de Nagahama, província de Shiga, um cidadão peruano identificado como Rossy Cruz John Elias, de 34 anos, foi preso após causar um acidente de trânsito ao trafegar na contramão. Segundo as autoridades, o suspeito estava dirigindo em direção oeste quando, aparentemente, fez um retorno em local indevido e passou a trafegar no sentido oposto ao permitido, o que resultou na colisão com dois veículos.

Durante o interrogatório, o motorista teria afirmado que se confundiu com o trajeto e acabou seguindo na direção errada. Ainda assim, a prisão foi decretada e noticiada com destaque — mais pela nacionalidade do condutor do que pelo acidente em si.

A repercussão na mídia japonesa foi imediata e, mais do que isso, reveladora: diante do caso envolvendo um estrangeiro, a Agência Nacional de Polícia anunciou estar avaliando a revisão do sistema de conversão de carteiras de habilitação estrangeiras. A proposta prevê o endurecimento dos critérios de verificação de endereço para quem deseja trocar a carteira obtida no exterior por uma habilitação japonesa.

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A medida causou estranheza em parte da sociedade, principalmente quando se observa que casos recorrentes de acidentes graves provocados por motoristas idosos — muitos dos quais nascidos e criados no Japão — não motivam reações institucionais com a mesma velocidade ou intensidade.

Especialistas apontam que o episódio pode ser mais um reflexo de tratamento desigual e discriminatório aplicado a estrangeiros que vivem no Japão. 

"A reação institucional desproporcional pode reforçar preconceitos", afirma a socióloga japonesa Kaori Nishimura, pesquisadora da Universidade de Osaka, especializada em imigração e políticas públicas.

“Casos como esse mostram como o sistema reage de forma diferente quando o envolvido é um estrangeiro. A proposta de revisão do sistema de habilitação pode até ser válida se baseada em dados reais, mas quando surge imediatamente após um incidente isolado, a medida ganha contornos discriminatórios. Isso fortalece o estigma de que estrangeiros são mais propensos ao erro — algo que os números não sustentam.”

A discussão está lançada, e o caso de Rossy Cruz John Elias expõe um dilema que vai além das leis de trânsito: o de como o estrangeiro é, muitas vezes, visto como um corpo estranho, mesmo quando vive, trabalha e contribui para a sociedade japonesa.

Perfil dos acidentes fatais no Japão (dados da Agência Nacional de Polícia – 2023):

  • 57,4% dos acidentes fatais foram causados por motoristas com 65 anos ou mais.

  • 8,2% envolveram motoristas estrangeiros.

  • Principais causas: distração ao volante, desrespeito à sinalização e erro de conversão.

  • Medidas mais recentes do governo têm focado no uso obrigatório de frenagem automática para idosos — mas sem revisão drástica no processo de renovação de carteira.

Nota Editorial

Discriminação velada ou zelo seletivo?

Não se trata de relativizar acidentes de trânsito nem de suavizar responsabilidades individuais. No entanto, quando as instituições reagem com rigor diferenciado dependendo da origem do condutor, é necessário refletir: estaríamos naturalizando a ideia de que o estrangeiro é, por definição, um risco maior? A segurança pública precisa de critérios técnicos e justos — não de estigmatização.

FONTE/CRÉDITOS: Da redação