KANAGAWA-Encarar a realidade do que está acontecendo no Japão é fundamental para “colocar os pés no chão”, acordar e tomar providências em relação à própria vida enquanto ainda há tempo. Não se trata apenas de respeitar regras, falar o idioma ou pagar impostos corretamente. As verdadeiras intenções do governo vão além disso.
O discurso de culpabilização dos estrangeiros e a retórica negativa contra imigrantes têm sido usados como estratégia política. Na prática, isso pode significar um afastamento gradual, sobretudo de comunidades consideradas futuras despesas para o Estado — como aposentadorias e assistência social. E, nesse contexto, os brasileiros aparecem entre os mais vulneráveis.
Enquanto isso, estrangeiros asiáticos continuam chegando diariamente ao país. Grandes empresas e intermediárias já trazem centenas de trabalhadores jovens, com contratos de curto prazo, mão de obra mais barata e sem vínculo trabalhista de longo prazo, como aposentadoria. Muitos passam por treinamento prévio de idioma e regras ainda em seus países de origem. Já os brasileiros, há anos, enfrentam dificuldades para entrar no Japão.
Percebe-se um padrão: trabalhadores jovens, temporários e com baixo custo são preferidos. Brasileiros, por outro lado, possuem direitos trabalhistas, envelheceram no país, pagaram impostos por décadas e, agora, passam a ser vistos como despesa futura. O Japão enfrenta sérias dificuldades para sustentar a própria previdência — considerada por muitos inferior à brasileira — e não demonstra disposição para ampliar gastos com estrangeiros.
Nesse cenário, nem mesmo quem cumpre todas as regras está totalmente seguro. Falar japonês, pagar impostos, ter visto permanente ou casa própria já não garante estabilidade. O risco é real e crescente.
PONTOS PARA REFLEXÃO
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Governos conservadores e de extrema direita raramente governam para os menos favorecidos. Costumam incentivar discriminação, preconceito e uma falsa sensação de superioridade. No Japão, estrangeiros ocupam essa posição de fragilidade.
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Historicamente, brasileiros prejudicaram outros brasileiros dentro das empresas, falando mal de conterrâneos para agradar líderes — sem perceber que o japonês tende a generalizar comportamentos.
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Frases como “não gostou, pega a mala e vai embora” sempre circularam entre brasileiros. Agora, quando as decisões do governo incomodam, o discurso se volta contra quem governa.
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O Japão sempre “tolerou” estrangeiros, mas alguns acabam se sentindo superiores a outros imigrantes. Ainda assim, para o japonês médio, todos continuam sendo estrangeiros.
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O Brasil sempre teve problemas de corrupção — mas outros países também têm, inclusive o Japão, ainda que isso raramente seja discutido abertamente.
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A primeira-ministra governa para o Japão e para os japoneses, não para estrangeiros. Sob essa ótica, sua política segue a lógica de proteger “os próprios filhos e o próprio lar”.
Como muitos brasileiros costumam dizer: “estamos na casa deles e temos que respeitar as regras deles”. O ponto é que, agora, as regras mudaram — e passaram a contrariar interesses de quem vive aqui há décadas.
O ex-primeiro-ministro Shinzo Abe pode ter sido mais favorável aos estrangeiros, mas a crise atual não começou agora. Ela é resultado de políticas acumuladas ao longo de vários governos.
Diante disso, além de cumprir regras, pagar impostos e aprender o idioma, torna-se essencial se preparar financeiramente. Guardar dinheiro, planejar o futuro e considerar cenários adversos deixou de ser opção.
Nem mesmo quem possui visto permanente está totalmente protegido.
Há ainda a possibilidade de o governo obrigar estrangeiros a aderirem a planos privados de aposentadoria, complementares ao Shakai Hoken, sob risco de perder o visto permanente. Caso isso ocorra, os custos tendem a ser elevados.
O alerta está dado. Ignorar os sinais pode custar caro.
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