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Nos últimos anos, o Japão tem passado por uma nova onda de discursos nacionalistas e crescentemente críticos à presença estrangeira no país. Embora a sociedade japonesa tenha, historicamente, mantido uma relação ambígua com os estrangeiros — os chamados gaijin — os recentes discursos do primeiro-ministro Ishiba Shigeru têm acendido o alerta para uma mudança mais explícita e institucionalizada na maneira como o país se relaciona com os imigrantes.
Sob o governo de Ishiba, vieram à tona falas que ressoam com uma parcela conservadora da população japonesa. Em um de seus discursos mais compartilhados, Ishiba declarou:
“O Japão precisa preservar sua essência, sua pureza cultural e seus valores milenares. A abertura desenfreada a culturas externas dilui nossa identidade.”
A declaração, embora velada, foi interpretada por muitos como uma crítica direta à crescente presença de trabalhadores estrangeiros no país — especialmente em áreas como construção civil, cuidados com idosos e manufatura, setores nos quais o Japão, até recentemente, era altamente dependente da mão de obra estrangeira.
O que está por trás do discurso? Crise ou conveniência?
A nova postura do governo levanta uma pergunta urgente: por que, justamente agora, o Japão estaria endurecendo o discurso contra os estrangeiros? Seria o reflexo de uma intolerância enraizada? Ou haveria motivações mais práticas e conjunturais?
Desde a pandemia e, mais recentemente, diante das tensões econômicas globais, o Japão tem enfrentado uma desaceleração em sua economia e uma pressão crescente sobre seus sistemas de seguridade social. A crise habitacional em algumas cidades, o envelhecimento acelerado da população e o aumento do desemprego juvenil reacenderam o discurso de que os estrangeiros estariam “tomando espaço” — um argumento frequentemente usado por populistas em diversos países, como se viu nos Estados Unidos sob o governo Trump.
Entretanto, há uma contradição estrutural nesse raciocínio: o Japão precisa de mão de obra estrangeira. Com uma taxa de natalidade entre as mais baixas do mundo e uma população idosa crescente, o país não conseguirá sustentar sua economia e seus serviços essenciais apenas com sua força de trabalho nativa. A questão, portanto, não é a presença dos estrangeiros, mas como essa presença é percebida e instrumentalizada politicamente.
A ideologia da superioridade e o “nacionalismo suave” japonês
O Japão carrega, desde o período Meiji e especialmente após o imperialismo pré-Segunda Guerra, uma narrativa nacional centrada na superioridade cultural e moral do povo japonês. Mesmo após a derrota em 1945, essa percepção não desapareceu — apenas foi suavizada e internalizada.
No governo de Ishiba, essa visão ressurge sob uma nova roupagem: a de proteção cultural. Fala-se em “preservar os valores japoneses”, “defender a harmonia social” e “impedir a fragmentação cultural” — conceitos que, embora vagos, funcionam como códigos para uma política de contenção da diversidade.
Nas redes sociais japonesas, hashtags como #日本人の誇り (“Orgulho de ser japonês”) e #文化の保護 (“Proteção cultural”) ganharam força, muitas vezes acompanhadas de críticas veladas ou explícitas à imigração. Grupos ultranacionalistas como o Zaitokukai, que tradicionalmente miravam minorias coreanas, passaram a estender seu discurso a outros grupos estrangeiros, incluindo filipinos, vietnamitas e brasileiros.
E os brasileiros? Herdeiros e estrangeiros ao mesmo tempo
Nesse contexto, os brasileiros ocupam uma posição única. O Japão foi, historicamente, um destino de retorno para os nikkeis — descendentes de japoneses que emigraram para o Brasil no século XX. Desde os anos 1990, milhares de brasileiros foram para o Japão trabalhar em fábricas e empresas, amparados por leis migratórias que facilitavam o retorno de descendentes.
No entanto, mesmo esses brasileiros nikkeis não estão imunes ao novo discurso nacionalista. Apesar da ascendência japonesa, muitos não falam fluentemente o idioma ou não seguem os códigos culturais locais, o que os torna alvos do mesmo preconceito enfrentado por outros grupos de imigrantes. Em fóruns e comentários online, é comum ver brasileiros sendo chamados de “preguiçosos” ou “barulhentos” — estereótipos que ignoram décadas de contribuição desses trabalhadores à economia japonesa.
Influência externa ou reflexo interno?
Não se pode ignorar a influência do cenário internacional. O aumento da retórica anti-imigração nos Estados Unidos, na Europa e mesmo em países como a Austrália, legitimou, de certa forma, o endurecimento de posturas similares em países asiáticos. O Japão, que sempre oscilou entre o isolamento e a abertura, parece agora inclinar-se novamente para uma forma de “isolacionismo seletivo”.
Ao mesmo tempo, há uma necessidade interna de criar um “inimigo simbólico” que desvie a atenção das falhas estruturais do país — entre elas, a estagnação econômica, a falta de inovação em áreas sociais e a crescente desigualdade regional.
Conclusão: uma encruzilhada entre tradição e necessidade
O governo de Ishiba Shigeru representa um momento de inflexão na história recente do Japão. Ao dar voz a sentimentos nacionalistas e ressuscitar discursos de pureza cultural, ele coloca em risco o futuro de uma sociedade que, goste ou não, está se tornando cada vez mais multicultural.
A verdadeira questão que o Japão precisa enfrentar é se deseja continuar sendo uma nação fechada em seus próprios mitos ou se está pronta para integrar, de forma genuína, aqueles que já fazem parte de sua realidade — inclusive os brasileiros, que, mesmo como filhos da diáspora, continuam sendo vistos como estrangeiros na “terra de seus avós”.
Por-Beto Nagaki
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