TÓQUIO, JAPÃO – Em meio à contagem regressiva para as eleições parlamentares de domingo, o primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba está em uma encruzilhada. Entre os muitos slogans que ecoam na campanha, "Não nos subestimem" e "Japoneses em primeiro lugar" parecem capturar a difícil situação do líder. Com a ameaça de perder a maioria na Câmara dos Conselheiros, o mandato de Ishiba como premiê, à frente do Partido Liberal Democrata (PLD), está seriamente em risco.

"Esta é a eleição mais difícil até agora", declarou Ishiba a seus apoiadores durante um discurso de campanha, enquanto os 17 dias de corrida eleitoral se aproximam do fim. "Inclino a cabeça e peço o apoio de vocês."

A Luta por Sobrevivência Política

A eleição é crucial para Ishiba, que comanda um governo minoritário desde que o bloco governista perdeu o controle da poderosa Câmara dos Representantes em outubro passado. Desde então, ele tem enfrentado dificuldades para reconquistar o apoio público, sem grandes conquistas a celebrar.

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A retórica do primeiro-ministro tem se intensificado, especialmente em questões que atraem os conservadores, base central do PLD. Após o anúncio do presidente dos EUA, Donald Trump, de uma tarifa de 25% sobre produtos japoneses a partir de 1º de agosto, Ishiba adotou um tom incisivo. Em um discurso de 9 de julho, ele disparou: "Não nos subestimem. Mesmo que estejamos negociando com um aliado, devemos dizer o que precisa ser dito sem hesitação."

A linguagem, excepcionalmente forte para um líder japonês, foi interpretada como uma tentativa de Ishiba mostrar que não hesitaria em defender os interesses nacionais do Japão. No entanto, o recado parecia mais direcionado aos eleitores locais do que a Washington.

Além disso, Ishiba voltou a enfatizar a necessidade de revisar a Constituição pacifista do Japão, um objetivo de longa data do PLD. As perspectivas para a primeira emenda constitucional do país, porém, podem diminuir drasticamente caso o partido perca assentos na câmara alta, composta por 248 membros. Qualquer proposta de revisão exige a aprovação por maioria de dois terços em ambas as casas antes de ser submetida a um referendo nacional.

Ascensão da Extrema-Direita e Desafios para o PLD

A mudança de tom de Ishiba ocorre em um cenário de ascensão de outros partidos, como o populista Sanseito, que vem ganhando popularidade entre os eleitores mais jovens através das mídias sociais. A agenda nacionalista do Sanseito, notadamente sua postura linha-dura em relação a estrangeiros sob o lema "Japoneses Primeiro", está ressoando entre os eleitores frustrados com o PLD, segundo analistas. O líder do Sanseito, Sohei Kamiya, é um ex-membro do próprio PLD.

As pesquisas mais recentes, como a da Kyodo News, indicam que o PLD e seu parceiro minoritário, o partido Komeito, não têm garantia de manter a maioria na câmara alta. Com 125 cadeiras em disputa, a coalizão governista precisa conquistar pelo menos 50 para atingir a maioria. Um funcionário do governo expressou pessimismo: "Será que o PLD conseguirá reconquistar apoio nos próximos dias? Dada a situação, é um cenário difícil de imaginar."

Com os ventos aparentemente soprando a seu favor, o Partido Democrático Constitucional do Japão (CDPJ), a principal força de oposição, e o Partido Democrático para o Povo estão intensificando os esforços para destacar suas diferenças com o bloco governante. A oposição, por exemplo, defende amplamente uma redução ou abolição do imposto sobre o consumo para aliviar a inflação, em forte contraste com a postura cautelosa de Ishiba, que apenas prometeu auxílio financeiro ao público.

O líder do CDPJ, Yoshihiko Noda, ex-primeiro-ministro, criticou duramente o PLD: "Vamos acabar com um LDP que nem sequer tenta ficar do lado das pessoas comuns em primeiro lugar", lembrando os eleitores de uma polêmica declaração de Yosuke Tsuruho, membro sênior do PLD, que descreveu um terremoto de 2024 no centro do Japão como "afortunado". Noda também desafiou o slogan do Sanseito, afirmando: "O que precisamos também não é 'Japonês em Primeiro Lugar'".

Redes Sociais e Polarização: O Desafio Final de Ishiba

Especialistas em comunicação política, como Ken Kinoshita, do Instituto de Tecnologia de Fukuoka, observam como o uso crescente das mídias sociais está influenciando as eleições. Vídeos curtos com frases chamativas de discursos de candidatos circulam online, acelerando a polarização. "Isso significa que a mudança entre os eleitores — seja para a direita ou para a esquerda — está se tornando mais pronunciada, o que pode não ser um bom presságio para o PLD", analisou Kinoshita.

Na reta final da campanha, Ishiba se concentra nos eleitores conservadores na tentativa de aumentar as chances da coalizão governista. Contudo, seu sucesso está longe de ser garantido. Ele "inevitavelmente terá que se concentrar mais em virar o jogo e reconquistar apoio" do que em falar sobre suas visões, mas "não há garantia de que as coisas correrão bem", concluiu Kinoshita.

FONTE/CRÉDITOS: Kyodo News