A pesquisa recente conduzida pelo Yomiuri Shimbun em parceria com a Universidade de Waseda expôs, mais uma vez, um padrão já conhecido: a tendência japonesa de responsabilizar estrangeiros por problemas que o próprio país não quer admitir. Segundo o levantamento, 68% dos entrevistados acreditam que o aumento de residentes estrangeiros provoca piora na segurança pública. Nada mais conveniente.

A rejeição também saltou: 59% agora são contra aceitar mão de obra estrangeira — um crescimento expressivo em comparação ao ano anterior. Um detalhe que o RPJ não ignora: esses números refletem menos a realidade e mais a narrativa deliberadamente plantada ao longo dos anos.

Porque, sejamos claros: não são os estrangeiros que cometem a maioria dos crimes no Japão. A estatística oficial não deixa dúvidas. Mesmo assim, a população insiste em alimentar a fantasia de que o “perigo” vem de fora, uma lógica tão ultrapassada quanto injusta.

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A distorção fica ainda mais evidente quando 79% dos jovens de 18 a 39 anos se dizem preocupados com a suposta “piora da segurança”. Jovens — muitos deles que convivem com estrangeiros diariamente — reproduzindo preconceitos que não têm base em fatos, mas sim em medo culturalmente repassado e politicamente incentivado.

Entre as principais respostas da pesquisa aparecem “diferenças de idioma e cultura” (63%) e “piora da segurança pública” (68%). A ironia? Logo depois vem uma admissão involuntária da realidade: 61% reconhecem que os estrangeiros são essenciais para suprir a falta de mão de obra. Ou seja: querem o trabalho, mas não querem o trabalhador. Querem a força, mas não querem a presença. Querem o serviço, mas não querem a pessoa.

E para completar o cenário: 70% acreditam que o Japão deve priorizar seus próprios interesses em detrimento da cooperação internacional — o maior índice desde 2017. Nacionalismo crescente não é coincidência; é combustível para justificar preconceitos.

Opinião Editorial – RPJ
A verdade é dura, mas precisa ser dita: o Japão continua tratando o estrangeiro como suspeito padrão, mesmo quando os números mostram o contrário. É mais fácil apontar o dedo para quem vem de fora do que confrontar os próprios problemas — desde falhas sociais até crimes cometidos por cidadãos japoneses, que raramente ganham o mesmo destaque.

O discurso de que “estrangeiros trazem insegurança” serve a muitos interesses. Serve para políticos que querem apoio fácil. Serve para instituições que evitam expor suas fragilidades. Serve para quem prefere viver na bolha da “pureza cultural”.

Mas não serve para a verdade.

A RPJ reforça: não há segurança pública fortalecida enquanto houver política pautada em estereótipos, medo e desinformação. O estrangeiro não ameaça o Japão. O que ameaça o Japão é a incapacidade de evoluir.

FONTE/CRÉDITOS: Da redação