A morte da cantora, atriz e empresária Preta Gil, aos 50 anos, em julho de 2025, provocou reações diversas nas redes sociais — tanto no Brasil quanto fora do país. Enquanto fãs e colegas brasileiros se manifestaram em profunda comoção, homenageando a trajetória da artista, em outros lugares, como no Japão, a repercussão foi discreta, por vezes até fria, gerando críticas e reflexões sobre o alcance da sua imagem internacional e os limites da empatia digital.

Nas redes sociais, sobretudo entre brasileiros residentes no Japão, muitos se disseram surpresos com o tamanho da mobilização em torno do velório e homenagens. Houve quem questionasse: "Mas por que tanta repercussão? Foi só porque era filha do Gilberto Gil?", ou ainda: "Ela era famosa por quê, exatamente?"

A pergunta não é incomum, e até legítima para quem vive longe do Brasil e não acompanhou de perto a carreira de Preta Gil. Porém, por trás desses questionamentos, também se esconde uma tendência frequente nas redes: a frieza diante do luto alheio — especialmente quando não há identificação direta com a pessoa falecida.

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A trajetória de Preta Gil: muito além do sobrenome

Preta Gil construiu sua carreira com coragem e autenticidade. Antes de se dedicar à música, atuou nas áreas de produção e publicidade. Em 2003, lançou seu primeiro álbum, Prêt-à-Porter, cuja capa — em que aparecia nua — gerou enorme repercussão e já anunciava seu estilo ousado e libertador. Um de seus maiores sucessos, "Sinais de Fogo", escrita por Ana Carolina, nasceu desse trabalho.

Ao longo dos anos, destacou-se também como atriz, apresentadora e empresária. Criou o Bloco da Preta, um dos maiores blocos de carnaval do Rio de Janeiro, arrastando multidões pelas ruas. Em 2017, fundou a agência Mynd, voltada para publicidade e agenciamento artístico.

Mas foi principalmente como voz ativa contra o racismo, a gordofobia, a homofobia e outras formas de preconceito que Preta Gil se firmou como símbolo de representatividade. Sua trajetória se entrelaçou com pautas sociais urgentes, o que fez dela uma artista reconhecida não só pela obra, mas pelo posicionamento.

Em 2024, lançou sua autobiografia, "Preta Gil: os primeiros 50", onde abordou sua vida pessoal e profissional, incluindo o diagnóstico de câncer intestinal, revelado em 2023.

O luto, a distância e o impacto da visibilidade

A reação no Brasil — marcada por emoção, homenagens, shows cancelados e discursos de artistas — reflete uma característica já conhecida da cultura brasileira: a comoção coletiva diante da perda, especialmente de figuras públicas com forte presença na mídia. É também um reflexo da identificação emocional com artistas que, como Preta, sempre estiveram próximos do povo, em programas de TV, redes sociais e eventos populares.

No Japão, onde muitos brasileiros vivem em uma realidade social e cultural muito diferente, a percepção é outra. Para boa parte dos residentes, Preta Gil não fazia parte do dia a dia, e sua obra pouco chegou a esse público. Lá, figuras como Gal Costa, Nana Caymmi ou mesmo Erasmo Carlos — artistas com carreiras lendárias — também não mobilizaram comoções significativas entre estrangeiros, o que mostra que a conexão emocional é, muitas vezes, construída pelo tempo, pela presença midiática e pela proximidade cultural.

O silêncio constrangedor de quem vive da música brasileira

Mas o que mais chamou a atenção neste episódio foi o silêncio de artistas brasileiros que vivem no Japão, principalmente cantores e intérpretes que ganham a vida cantando MPB, samba, bossa nova e outros gêneros que Preta Gil também representava. Muitos desses profissionais se apresentam regularmente em bares, eventos e festivais japoneses, levando a música verde e amarela ao público estrangeiro — mas se calaram diante da perda de uma artista importante da cultura brasileira.

Esse silêncio não é apenas ausência de postagens ou notas de pesar. É simbólico. É a falta de reconhecimento público por alguém que, independentemente de preferências musicais, teve um papel ativo na cultura popular e na luta por causas sociais relevantes. Respeito começa justamente por quem vive da arte brasileira e tem o dever, mais do que ninguém, de reconhecer seus nomes e suas histórias.

Silêncio, às vezes, é respeito — mas nem sempre

É verdade que não sentir comoção é diferente de ser insensível. E, sim, nem todos precisam homenagear publicamente alguém com quem não se identificam. Mas há uma diferença entre silêncio respeitoso e omissão constrangedora, especialmente de quem carrega nas costas a bandeira da cultura brasileira em outros países.

No fim, o que se espera — em qualquer lugar do mundo — é o mínimo: respeito. E quando não se tem o que dizer com empatia ou conhecimento, o silêncio é, às vezes, a resposta mais digna. Outras vezes, ele só denuncia o vazio de quem esquece que, antes de tudo, a música é feita de memória, história e sentimento.

FONTE/CRÉDITOS: Da redação