NAGANO – Criado em 1993 para qualificar mão de obra de países em desenvolvimento, o Programa de Treinamento de Estagiários Técnicos Estrangeiros do Japão vem se tornando uma armadilha para muitos trabalhadores vietnamitas. Em 2023, a província de Nagano registrou 246 prisões de cidadãos do Vietnã – três vezes mais que no ano anterior. Dívidas impagáveis, exploração laboral e falhas no sistema de imigração ajudam a explicar a escalada da criminalidade.

Do campo ao crime

Na pacata vila agrícola de Kawakami, conhecida como a "capital da alface" do Japão, histórias de sacrifício se repetem.

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"Envio 100 mil ienes (cerca de R$ 3,3 mil) todo mês para meus filhos na universidade", conta Kiem, um dos trabalhadores vietnamitas.

Thuc, outro estagiário, diz ter conseguido construir uma casa em seu país com o que economizou no Japão.

Ambos vieram pelo programa, que impõe condições rígidas: são permitidos até cinco anos de trabalho, mas os estagiários são proibidos de trocar de empregador e muitas vezes recebem salários insuficientes para pagar as dívidas assumidas para imigrar.

O lado obscuro do "sonho japonês"

Antes de partir para o Japão, muitos trabalhadores contraem empréstimos pesados para cobrir as taxas cobradas por agências de recrutamento — valores que chegam a 1 milhão de ienes (cerca de R$ 33 mil), o equivalente a dois anos de salário no Vietnã.

No Japão, enfrentam barreiras linguísticas, jornadas exaustivas e, diante das dificuldades, parte deles abandona os empregos. Hoje, mais de 10 mil vietnamitas vivem em situação ilegal no país.

O ambiente de desespero favorece a adesão ao crime. Redes sociais e comunidades online proliferam anúncios de atividades ilegais, alerta Huy, presidente da Associação Vietnamita em Gunma: "É propaganda de trabalho criminoso".

Casos emblemáticos

Nos últimos meses, autoridades registraram uma série de furtos em Matsumoto e na Península de Noto, com forte envolvimento de vietnamitas. Em Nagano, quatro dos cinco presos mais recentes estavam com o visto vencido e buscavam dinheiro de qualquer forma.

Sistema sob crítica

O fazendeiro Katsutoshi Ito, que paga 1.150 ienes (cerca de R$ 38) por hora aos trabalhadores estrangeiros, critica o modelo atual.

"Se ganham apenas 100 mil ienes por mês, é como ficar no Vietnã. Não vale a pena", lamenta.

Especialistas apontam que a disparidade salarial entre as regiões, somada à proibição de mudar de emprego, gera um cenário propício para desaparecimentos, trabalho informal e participação em redes criminosas.

FONTE/CRÉDITOS: Da redação