A discussão em torno do uso de termos como "todes" no Brasil acendeu um intenso debate que ultrapassa as fronteiras da gramática e toca em questões de identidade de gênero, política pública e liberdade de expressão. O termo, que faz parte da chamada linguagem neutra ou não-binária, busca oferecer uma alternativa às formas binárias de gênero (masculino e feminino, como em "todos" e "todas"), visando incluir pessoas trans e não-binárias na comunicação.

O epicentro dessa polêmica tem sido notório em confrontos diretos, como os protagonizados pelo Prefeito de Cuiabá, que se posicionou de forma veemente contra o uso dessa linguagem em eventos e comunicações municipais, alegando uma defesa intransigente da Língua Portuguesa.

 O Confronto em Cuiabá: "Defesa da Língua" vs. "Militância Ideológica"

Em vídeos que circularam amplamente, o Prefeito de Cuiabá interveio em situações públicas, como em uma unidade do SUS e em uma palestra, para censurar o uso do termo "todes".

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A essência de seu argumento reside na premissa de que:

  • "O SUS é de TODOS!! A Língua Portuguesa também.": O prefeito utiliza a forma tradicional masculina (que no português é também a forma não marcada, usada para abarcar ambos os gêneros) para reforçar o princípio de universalidade do serviço, mas rejeita a inovação linguística.

  • "TODES” NÃO EXISTE NA LÍNGUA PORTUGUESA! O ponto central do embate é a norma culta da Língua Portuguesa. Para o prefeito e seus defensores, o uso do pronome neutro é uma "militância ideológica" que não deve guiar a política pública ou a comunicação oficial do município.

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  • Ameaça de Sanção: A postura chegou a ameaçar a suspensão de palestras, reforçando o rigor contra a adoção da linguagem neutra em eventos patrocinados ou ligados à administração municipal.

Para os defensores da linguagem neutra, a recusa em usar "todes" representa a exclusão e a negação da existência de pessoas que não se identificam com o binário homem/mulher, transformando a língua em um instrumento de invisibilidade social.

A Nova Lei Federal: O Fim da Linguagem Neutra na Administração Pública

A discussão ganhou um novo capítulo com a sanção da Lei 15.263/2025 pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que estabelece a Política Nacional de Linguagem Simples.  

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Paradoxalmente, embora o foco da lei seja a clareza e acessibilidade na comunicação governamental, ela inclui uma proibição que impacta diretamente a linguagem neutra.

Pontos-chave da Lei:

  • Proibição Explícita: A norma determina que os órgãos públicos da União e das federações não utilizem "formas de flexão de gênero ou número que estejam fora das regras da língua portuguesa", o que inclui o termo "todes" e outras formas da chamada linguagem neutra.

  • Objetivo Oficial: O governo federal justifica a proibição com a meta de garantir que a comunicação seja clara, direta e acessível para a população em geral, "fortalecendo o direito à informação e à participação social".

  • Barreira Comunicacional: A argumentação oficial é que formas de flexão fora da norma culta podem atrapalhar o acesso à comunicação da maioria da população, dificultando a compreensão e a resolução de demandas.

 Conclusão: Uma Questão de Inclusão e Legislação

A polêmica do "todes" no Brasil evidencia um conflito entre a evolução social — que busca uma língua mais inclusiva para todas as identidades de gênero — e a manutenção da norma culta e da acessibilidade na comunicação pública.

Enquanto a linguagem neutra continua a ser um instrumento de inclusão e expressão nos círculos sociais, acadêmicos e ativistas, a Lei 15.263/2025 estabelece um marco legal claro: a administração pública federal e federativa deve se ater às regras gramaticais estabelecidas, colocando a clareza e a acessibilidade da maioria da população como prioridade legislativa na comunicação oficial.

FONTE/CRÉDITOS: Da redação