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A xenofobia no Japão já não é um problema subterrâneo. Ela está na superfície — alimentada por discursos vagos, ansiedades fabricadas e um sentimento cada vez mais claro de que “estrangeiro” virou sinônimo de ameaça. E, enquanto isso acontece, parte do governo finge que é apenas “preocupação com a ordem pública”.
Em Yokohama, uma palestra sobre direitos humanos expôs o tamanho do buraco em que o país está entrando.
No dia 14(Novembro), no distrito de Naka, o escritor de não ficção Koichi Yasuda, veterano em denunciar a discriminação no Japão, conduziu a palestra “Estrangeiros no Japão e Direitos Humanos” — a primeira da nova série de educação para adultos da cidade. Cerca de 50 pessoas compareceram. Número pequeno, considerando o tamanho do problema.
Yasuda relembrou episódios históricos, como o massacre de coreanos no Grande Terremoto de Kanto (1923), para reforçar aquilo que boa parte do Japão insiste em ignorar:
“Discriminação e preconceito matam pessoas.”
E não é exagero. Yasuda contou que, hoje, volta para casa torcendo para não se ver no meio de uma manifestação extremista. Sim: este é o nível do clima atual.
A comunidade curda: alvo preferido de uma máquina de ódio fabricada nas redes
Atualmente, Yasuda acompanha a situação dos cerca de 2 mil curdos que vivem em Kawaguchi, Saitama — muitos fugindo de perseguição. Mas aqui, em vez de acolhimento, encontraram um país disposto a repetir o ciclo de hostilidade.
Nos últimos anos, a comunidade se tornou alvo de:
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protestos anti-imigração,
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campanhas de ódio,
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boatos infundados replicados diariamente,
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linchamento digital organizado.
E tudo isso ganhando força nas redes sociais, onde a desinformação corre solta e a imagem do “curdo perigoso” virou produto barato para consumo dos xenófobos de plantão.
Yasuda mostrou casos de estudantes que oram no caminho de casa para não cruzarem com manifestantes — e crianças do ensino fundamental que vigiam redes sociais para saber se são o próximo alvo.
Imagine precisar monitorar o próprio nome para não virar manchete de ódio.
É isso que acontece no “país seguro e ordenado”.
O Japão discute a mesquita de Fujisawa… como se fosse uma ameaça nacional
A palestra também abordou o debate inflado e distorcido sobre a construção de uma mesquita em Fujisawa, Kanagawa — assunto que explodiu online como se fosse o estopim de uma “invasão”.
Nada novo: a fórmula é sempre a mesma.
Pouco conhecimento, muito preconceito.
Yasuda provocou os presentes com uma pergunta simples, que desmonta toda a histeria coletiva:
Quantos de vocês já conversaram com um curdo?
A resposta, como sempre, revela tudo: quase ninguém.
Enquanto isso, o governo segue na sua palavra preferida: “endurecer”
O país está cada vez mais confortável em culpar estrangeiros por problemas que não nasceram deles. A retórica política fala em “endurecer regras”. A opinião pública repete. E a xenofobia agradece.
A RPJ News já alertou:
Quando se normaliza o discurso do medo, normaliza-se também a perseguição.
E Yokohama acaba de mostrar mais uma prova de que o Japão está no caminho errado — perigoso e historicamente conhecido.
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